Autoritarismo, processo pena e seletividade
desafios à consolidação do Estado Democrático de Direito
Palavras-chave:
Processo penal, Seletividade, Encarceramento, Direitos humanosResumo
O processo penal brasileiro apresenta marcas persistentes de uma lógica autoritária, evidenciada pela recorrência de prisões cautelares, pela defesa da execução antecipada da pena e pela consolidação de uma cultura do encarceramento. O presente artigo tem como objetivo analisar criticamente os impactos sociais, políticos e econômicos dessa racionalidade autoritária, destacando seus efeitos sobre a superlotação carcerária e a seletividade penal, que incide de modo desproporcional sobre jovens negros, pobres e em situação de vulnerabilidade social. Metodologicamente, foram utilizadas técnicas de pesquisa bibliográfica e documental, com base em legislação, relatórios institucionais e literatura acadêmica de direito penal, teoria política, filosofia do direito e criminologia crítica. Os resultados apontam que o sistema processual penal brasileiro opera como dispositivo de exceção e exclusão, reforçando desigualdades estruturais e comprometendo a consolidação do Estado Democrático de Direito. A análise revelou que a superlotação carcerária não se limita a um problema estrutural, mas é resultado de escolhas políticas que privilegiam a punição em detrimento de alternativas restaurativas e de prevenção social. O estudo demonstra que a seletividade penal constitui elemento estruturante da política criminal, direcionando a repressão a grupos socialmente vulneráveis e reproduzindo o racismo estrutural. Conclui-se que a superação desse quadro requer a adoção de políticas públicas comprometidas com os direitos humanos e com uma perspectiva garantista, capazes de repensar o papel do processo penal e de promover um modelo de justiça orientado pela igualdade, pela dignidade e pela efetivação da democracia.
Referências
ADORNO, Sérgio. Sistema penitenciário no Brasil: problemas e desafios. Estudos Avançados, São Paulo, v. 27, n. 79, p. 7-24, 2013.
AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção: [homo sacer, II, I]. São Paulo: Boitempo Editorial, 2015.
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Rio de Janeiro: Companhia de Bolso, 2012.
BADARÓ, Gustavo Henrique Righi Ivahy. Execução provisória da pena e presunção de inocência. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 27, n. 159, p. 229-258, 2019.
BATISTA, Nilo. Apontamentos para uma história da legislação penal brasileira. Rio de Janeiro: Revan, 2016.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Relatório de informações penitenciárias – INFOPEN 2023. Brasília: CNJ, 2023.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 1.235.340/SC. Rel. Min. Luís Roberto Barroso. Julgado em 12 set. 2024. Tema 1068 da Repercussão Geral. Brasília: STF, 2024.
FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.
FRAGOSO, Christiano Falk. Autoritarismo e sistema penal. 2. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2016.
GLOECKNER, Ricardo Jacobsen. Autoritarismo e processo penal. São Paulo: Tirant Lo Blanch, 2018.
IPEA. Atlas da Violência 2023. Brasília: IPEA; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023.
MENDES, Bruno Barros. A “garantia da ordem pública” e a prisão preventiva no Brasil: crítica à vagueza normativa. Revista do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, São Paulo, v. 32, n. 187, p. 55-78, 2024.
ROSA, Alexandre Morais da; LOPES JR., Aury. A prisão preventiva e a identidade da ordem pública: crítica à cláusula aberta do art. 312 do CPP. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 110, p. 199-220, 2015.
SERRANO, Pedro Estevam Alves Pinto. Autoritarismo e golpes na América Latina: breve ensaio sobre jurisdição e exceção. São Paulo: Alameda, 2016.
STRECK, Lenio Luiz. Execução provisória da pena e presunção de inocência. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 92, p. 123-147, 2011.
WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda da legitimidade do sistema penal. 5. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Inimigo no direito penal. 3. ed. São Paulo: Revan, 2011.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Joaquim Joaquim José De Freitas Neto, Rafael Fecury Nogueira (Autor)

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
A. Autores mantém ciência da política de acesso aberto e de democratização de conteúdo com o trabalho licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution (CC BY 4.0).
B. A disseminação, registro, publicação em repositórios, índices, currículos e outros materiais é recomendada de modo promover a difusão do conhecimento para o maior número de usuários possível.
C. Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online em veículos científicos ou midiáticos de popularização da ciência ou de educação em qualquer segmento, a fim de promover a difusão do conhecimento e prestar serviço à comunidade com ampliação do impacto do periódico e do trabalho publicado.
